Biografia - Jessé

No início da década de 80, a TV Globo fez uma tentativa de resgatar os grandes festivais de música popular brasileira dos anos 60. Promoveu o MPB Shell, título que carregava em si uma ironia, ao unir a sigla da Música Popular Brasileira ao nome de uma grande empresa multinacional. Os festivais globais foram poucos, não revelaram nenhum Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento ou Renato Teixeira, como os de 20 anos atrás. Ficou muito pouco, na verdade, porque a emissora do plim plim tem a característica de pasteurizar tudo, investir colocando em primeiro plano os interesses comerciais, não a qualidade.

Mesmo assim, pelo menos dois nomes brilharam naquela época e de uma forma ou de outra podem ser considerados grandes da MPB. Um deles foi Osvaldo Montenegro, autor de Bandolins e Agonia, para ficar só em duas músicas desse artista que encantaram o público no seu tempo. O outro foi o cantor Jessé, uma voz rara, brilhante, excelente intérprete, que poderia hoje ser reconhecido como excepcional artista, mas morreu cedo, vítima de um acidente na estrada, sem conseguir apagar a imagem de brega firmada desde suas primeiras aparições na TV.

Jessé Florentino Santos, o nosso personagem, nasceu em Niterói (RJ), mas foi criado em Brasília e quando resolveu se dedicar profissionalmente à música mudou para São Paulo. Seus pais eram evangélicos e o cantor começou sua carreira na Igreja, entoando os hinos religiosos conhecidos desde criança.

Sua voz, porém, era grandiosa demais para ficar limitada à interpretação de canções gospel. Jessé queria cantar para o mundo, foi afastado da igreja e se tornou um artista popular.

Na década de 70 o artista já tentava sobreviver profissionalmente, formou alguns conjuntos musicais e era o homem dos sete ou mais instrumentos. Um pouco empresário, cantor, compositor, intérprete, tocava violão... O último dos grupos em que ele atuou foi o Placa Luminosa, quando resolveu seguir seu caminho sozinho.

No primeiro MPB Shell, da TV Globo, foi quando Jessé se tornou conhecido do público brasileiro, cantando a música “Porto Solidão”, uma composição de Zeca Bahia.

“Se um veleiro repousasse
na palma da minha mão
sopraria com sentimento
e deixaria seguir sempre
rumo ao meu coração”.

Ele foi eleito o melhor intérprete do Festival com essa música, que se tornou um grande sucesso nacional no rádio e na televisão. Talvez as roupas, o jeito de cantar, com um tom de dramaticidade; possivelmente a super exposição na mídia e a exploração de sua imagem de uma maneira errada, transformaram Jessé num “brega” a mais na música brasileira. Como se fosse mais um Oldair José, um Amado Batista ou Reginaldo Rossi com a voz um tanto mais refinada.

Mas basta você pegar o algum Estrela de Papel, de 1984, feito em parceria com a artista plástico Elifas Andreato, para você perceber que o rapaz nascido em Niterói era não apenas um grande cantor, como também sabia escolher o seu repertório e as composições por ele gravadas não tinham nada de vulgar.

No disco citado, um dos melhores de sua carreira, ele canta a música título, com a qual venceu um festival internacional disputado em Washington, faz um dueto inesquecível com Nélson Gonçalves em Maria Betânia, do pernambucano Capiba, passeia com desenvoltura até pelo tango argentino, e termina com a bela Oração da Noite, relembrando suas origens religiosas.

Outro disco primoroso do artista é “Sorriso ao Pé da Escada”, também em parceria com Elifas Andreato, no qual ele interpreta grandes clássicos da música popular brasileira, como Bandeira Branca, A Deusa da Minha Rua, Romaria, Dois pra lá Dois pra cá, A Noite de Meu Bem e Let it be. Vai de Dolores Duran a Milton Nascimento, de Maysa e João Bosco, de Renato Teixeira a John Lennon, ainda brincando com sua voz incrível em “Concerto para uma só voz”, de J. Sebastian Bach.

Agora me diga o caro leitor que tem um mínimo de informação sobre música: Um cara que interpreta essas músicas citadas acima pode ser considerado brega?

Infelizmente, quando alguém recebe um rótulo é muito difícil tirar. Temos na MPB o caso de Wilson Simonal, que morreu com fama de dedo duro da ditadura militar e hoje existem versões que tudo foi um mal entendido. Essa é outra história, porém...

Jessé cantou músicas suas, de Zeca Bahia (é também autor de sucessos na voz de Fagner e Belchior), de João Bosco, de Milton, de Chico Buarque e de outros grandes compositores brasileiros. Foram 12 discos até a morte tirar-lhe a vida numa viagem entre São Paulo e o Paraná, quando ia fazer um show. Tem até um disco cantado em inglês, quando ele usou o pseudônimo de Tony Stevens. Dentre os seus trabalhos, outra pérola é Ao Meu Pai, com músicas religiosas, relembrando os tempos da igreja e do convívio com sua família. Especialmente forte é a interpretação de Rude Cruz, uma composição inspirada do próprio Jessé.

Rude cruz se eregiu,
Dela o dia fugiu
Como emblema de vergonha e dor

Mas eu amo essa cruz
Porque nela Jesus
Deu a vida por mim
Pecador.

Eu aqui com Jesus,
A vergonha da cruz,
Quero sempre levar e sofrer;

Cristo vem me buscar,
E, com ele, no lar,
Uma parte da glória alcançar.

Sim, eu amo a mensagem da cruz
"te morrer eu a vou proclamar;
Levarei eu também minha cruz
Te por uma coroa trocar.

Esses versos, cantados pelo Jessé parecem ter algo de divino. E há também, parece, como uma “premonição”. Como se o artista de alguma maneira antevisse que Cristo ou Deus o viria buscar muito cedo. Quanto partiu, tinha apenas 40 anos.

Para uns Jessé Florentino dos Santos, com esse nome povão, foi apenas um brega. Outros são fãs apaixonados e criaram a lenda do “Inesquecível Jessé”. Alguns defendem que ele foi incompreendido. Preferimos considera-lo, no entanto, um grande artista da Música Popular Brasileiro que foi injustiçado em vida e ainda hoje o é.

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