Cabeça Dinossauro

13 faixas

Lançamento: 1986
Cabeça Dinossauro
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Informações: Cabeça Dinossauro

Cabeça Dinossauro é o terceiro álbum de estúdio da banda brasileira de rock Titãs, lançado em 1 de junho de 1986. Não só marcou a estreia da parceria da banda com o produtor Liminha, que na época era diretor da WEA, o que facilitou a aproximação de ambas as partes;[2] como também garantiu o primeiro disco de ouro para a banda, em dezembro do mesmo ano.[3]


Antecedentes, conceito e produção
A prisão do vocalista Arnaldo Antunes e do guitarrista Tony Bellotto, nos finais de 1985, por porte de heroína; o "relativo fracasso" do álbum anterior Televisão; e a clara vontade da banda de buscar uma sonoridade pesada influenciaram na mudança estética que o grupo tomou neste LP.[4] Além disso, eles não decidiram virar punks da "noite para o dia". Os ingredientes, segundo o tecladista e vocalista Sérgio Britto, já estavam presentes na banda anteriormente. Tony diz ainda que a banda já dava sinais desta sonoridade no palco:[2]


O tempo mostrou que essa vertente estava no nosso DNA, por isso o 'Cabeça' é uma grande marca, com toda a coisa do questionamento, com a crítica que a gente vê nas letras, com o punk, mas também o reggae, o funk. Acho que nesse disco a gente achou o caminho.

Além disso, o então baterista da banda Charles Gavin considerava que o momento conturbado vivido tanto pela banda quanto pelo Brasil como um todo foram também fatores de influência para o disco:[1]


Havia o momento do Brasil que estava se desenhando muito problemático, uma ditadura militar ainda se desmanchando, a morte de Tancredo. O clima era de desilusão, um cenário de distopia. E havia também nosso momento como banda. Tínhamos vindo de “Televisão”, nosso segundo disco, incompreendido pela gravadora (Warner), que não foi bem trabalhado. Isso nos provocou certo dissabor, ceticismo com a música, a carreira. Chegamos ao disco com raiva do mercado, da gravadora, de todo mundo.

Para o co-produtor Pena Schmidt, o álbum "era o momento da verdade. Os Titãs tinham crises entre se entregar à perfeição fonográfica ou à afirmação da rebeldia. Ali o resultado se equilibra faixa a faixa."[1]

O álbum foi gravado e mixado em um mês,[4] enquanto que sua fita demo foi gravada em apenas dois dias.[5] A capa foi baseada em um esboço do pintor italiano Leonardo da Vinci, intitulado A expressão de um homem urrando. Um outro desenho de Da Vinci, Cabeça grotesca, foi para a contracapa do disco.[6] Ambos os acetatos vieram diretamente do Museu do Louvre, trazidos por um amigo do pai de Sérgio. Eles vieram substituir pequenas reproduções das quais a banda dispunha mas que tinham qualidade insuficiente para o projeto.[2] Conforme relatou o músico em 2006, "as primeiras 30 mil cópias do disco foram feitas em um papel fosco e poroso muito mais caro que o normal. Generosidade do André Midani, então presidente da Warner, que nos deu total apoio antes, durante e depois da gravação atendendo a quase tudo o que pedíamos."[4]

Composição e letras
O material musical de Cabeça Dinossauro já estava todo definido antes da banda entrar em estúdio. A primeira faixa a ser gravada foi o single "AA UU", que já era tocado em shows. Já a última foi o encerramento "O Que".[4]

A faixa-título foi concebida durante uma viagem de ônibus da banda. O vocalista e saxofonista Paulo Miklos mostrou aos colegas uma fita cassete com registros de música tribal Xingu. Sobre aquele ritmo, alguém improvisou os versos "Cabeça dinossauro/Cabeça dinossauro/Cabeça, cabeça, cabeça dinossauro" e logo a letra estava pronta.[1] A percussão foi tocada por Liminha. Após várias tentativas elaboradas, ele improvisou com as paredes, o chão e as colunas do estúdio, e a performance "em transe" foi aprovada por todos.[4] O vocal de "A Face do Destruidor" foi gravado "em um fôlego só"[2] em cima da base tocada de trás pra frente. Segundo Sérgio, "quando gravamos tínhamos que pensar que aquilo ia ser ouvido dessa maneira".[4]

Alguns dos solos de Tony no disco foram feitos alternando a palheta com o um anel grande que ele usava. Desta forma, ele tocava ao mesmo tempo em que fazia uma espécie de percussão na guitarra.[4]

Legado
Na época do lançamento do álbum, Tony apostou uma garrafa de uísque com o vocalista Branco Mello que o álbum não chegaria a 100 mil cópias vendidas (o que daria um disco de ouro, na época). Ele acabou perdendo a aposta. Até seu primeiro aniversário, é certo que o álbum havia vendido 250 mil cópias, número que havia aumentado para 700 mil em 2016.[2][1]

Num artigo para a revista Rolling Stone Brasil em 2006, Sérgio comentou:[4]


Este disco, com certeza, se não é o melhor, é um dos melhores que fizemos. Só comparável a Õ Blésq Blom e Jesus não Tem Dentes no País dos Banguelas. Apesar disso não me atrevo a apontar nenhuma banda que pareça ter sido diretamente influenciada por ele.

Foi incluído na lista dos 100 melhores discos da música brasileira ficando com a 19ª posição.[7] Em setembro de 2012, foi eleito pelo público da Rádio Eldorado FM, do portal Estadao.com e do Caderno C2+Música (estes dois últimos pertencentes ao jornal O Estado de S. Paulo) como o sétimo melhor disco brasileiro da história.[8]

Em 2012, em comemoração aos 30 anos da banda, o álbum passou a ser executado na íntegra nos shows e foi relançado com as 13 canções originais, mais as versões demo delas e a inédita "Vai pra Rua", de Arnaldo e Paulo Miklos[9] - a faixa estava prevista para fazer parte do disco original, mas foi substituída por "Porrada".[2] Um dos shows dessa turnê foi registrado e lançado em CD, DVD, Blu-ray e Download digital, intitulado Cabeça Dinossauro ao Vivo 2012. O álbum foi lançado no final do mesmo ano. A turnê foi determinante para o direcionamento musical que a banda tomou no álbum que lançou tempos depois: Nheengatu,[10] que traz novamente agressividade e críticas sociais.[2]

Peça e livro
Em 2016, celebrando 30 anos do disco, um livro de contos inspirados nas faixas e uma peça inspirada no álbum foram lançados, com os nomes Cada um por si e Deus contra todos e Cabeça, respectivamente.[1]

A peça, dirigida por Felipe Vidal, leva oito atores para o palco (onde tocam o álbum na íntegra) e aborda "o signo da urgência e a sua relação com a juventude" em duas épocas distintas: 1986 (ano do álbum) e 2016 (ano da peça). Para o diretor, o signo em 1986 "exortava a urgência de viver uma liberdade recém-adquirida, com o fim da ditadura, hoje [2016], luta para manter tal conquista, num cenário mundial conturbado por crescentes forças conservadoras.[1]

O livro, por sua vez, foi lançado pela editora Tinta Negra e organizado por André Tartarini e inclui contos de autores como Letícia Novaes, Juliana Frank e Renato Lemos, além de uma introdução por Tony.[1]

Recepção da crítica
Críticas profissionais
Avaliações da crítica
Fonte
Avaliação
Allmusic
4.5 de 5 estrelas. link
Na época do lançamento do disco, o crítico Alberto Villas, d'O Estado de S. Paulo, afirmou que o álbum era "a grande surpresa do ano. (...) É um disco chocante, punk, nervoso e muito curioso. Um disco de rock-veneno, um grito. Um álbum de surpresas."[11]

Faixas
Álbum Original
N.º
Título
Compositor(es)
Vocais principais
Duração

1.
"Cabeça Dinossauro"
Arnaldo Antunes, Branco Mello, Paulo Miklos
Branco Mello
2:19
2.
"AA UU"
Marcelo Fromer, Sérgio Britto
Sérgio Britto
3:01
3.
"Igreja"
Nando Reis
Nando Reis
2:47
4.
"Polícia"
Tony Bellotto
Sérgio Britto
2:07
5.
"Estado Violência"
Charles Gavin
Paulo Miklos
3:07
6.
"A Face do Destruidor"
Arnaldo Antunes, Paulo Miklos
Paulo Miklos
0:34
7.
"Porrada"
Arnaldo Antunes, Sérgio Britto
Arnaldo Antunes
2:49
8.
"Tô Cansado"
Arnaldo Antunes, Branco Mello
Branco Mello
2:16
9.
"Bichos Escrotos"
Arnaldo Antunes, Nando Reis, Sérgio Britto
Paulo Miklos
3:14
10.
"Família"
Arnaldo Antunes, Tony Bellotto
Nando Reis
3:32
11.
"Homem Primata"
Ciro Pessoa, Marcelo Fromer, Nando Reis, Sérgio Britto
Sérgio Britto
3:27
12.
"Dívidas"
Arnaldo Antunes, Branco Mello
Branco Mello
3:06
13.
"O Que"
Arnaldo Antunes
Arnaldo Antunes
5:38
CD 2 - Edição Especial lançada em 2012 com a versão demo do Álbum
N.º
Título
Compositor(es)
Duração

1.
"Cabeça Dinossauro (Demo)"
Arnaldo Antunes, Branco Mello, Paulo Miklos
1:58
2.
"AA UU (Demo)"
Marcelo Fromer, Sérgio Britto
3:00
3.
"Igreja (Demo)"
Nando Reis
2:48
4.
"Polícia (Demo)"
Tony Bellotto
2:01
5.
"Estado Violência (Demo)"
Charles Gavin
2:33
6.
"A Face do Destruidor (Demo)"
Arnaldo Antunes, Paulo Miklos
0:44
7.
"Vai pra Rua (Demo)"
Arnaldo Antunes, Paulo Miklos
2:18
8.
"Tô Cansado (Demo)"
Arnaldo Antunes, Branco Mello
2:20
9.
"Bichos Escrotos (Demo)"
Arnaldo Antunes, Nando Reis, Sérgio Britto
3:17
10.
"Família (Demo)"
Arnaldo Antunes, Tony Bellotto
4:09
11.
"Homem Primata (Demo)"
Ciro Pessoa, Marcelo Fromer, Nando Reis, Sérgio Britto
3:13
12.
"Dívidas (Demo)"
Arnaldo Antunes, Branco Mello
3:09
13.
"O Que (Demo)"
Arnaldo Antunes
2:12
Ficha técnica
Titãs
Arnaldo Antunes - voz
Branco Mello - voz
Charles Gavin - bateria e percussão
Marcelo Fromer - guitarra base, guitarra solo em "Igreja" e "Família"
Nando Reis - baixo (exceto "Igreja") e voz
Paulo Miklos - voz, baixo em "Igreja"
Sérgio Britto - teclados e voz
Tony Bellotto - guitarra solo, guitarra base em "Igreja" e "Família"
Participações especiais
Liminha: guitarra em "Família" e "O Que"; percussão em "Cabeça Dinossauro"; DMX, Drumulator e efeitos em "O Que"
Repolho: castanholas em "Homem Primata"
Produção musical
Liminha - produtor, direção artística e musical[2]
Vitor Farias - produtor, engenheiro de gravação e mixagem
Pena Schmidt - produtor
Bernardo - assistente de estúdio
Ricardo Garcia - masterização
Gravado no Estúdio Nas Nuvens, Rio de Janeiro-RJ, em março e abril de 1986[2]
Produção gráfica
Sérgio Britto - capa
Vânia Toledo - fotos
Silvia Panella - arte final
José Oswaldo Martins - corte
Regravações por outros artistas
"Polícia": A canção foi regravada pela banda brasileira de thrash metal Sepultura, incluindo-a como faixa bônus da versão brasileira do disco Chaos A.D. (1993). Na edição de 1994 do festival Hollywood Rock, os Titãs chamaram os membros do Sepultura (também participantes do evento) para participarem da performance da faixa ao vivo. Em algumas ocasiões, o guitarrista Andreas Kisser participa de shows do Titãs tocando guitarra nessa canção. Os Paralamas do Sucesso, em algumas ocasiões, citam trechos de "Polícia" em sua canção "Selvagem". A banda liderada por Herbert Vianna ainda regravou as duas canções junto com a banda paulista, no CD e DVD Paralamas e Titãs Juntos e Ao Vivo, também com a participação de Andreas Kisser.
"Estado Violência": foi regravada pelo Biquini Cavadão em seu álbum de covers 80 (2001).
"Família": O grupo de pagode Molejo adaptou a letra para o ritmo de samba, na versão gravada no álbum de 1998. A introdução de teclados da versão original foi utilizada em uma das faixas, com o aval dos Titãs.
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